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Subvercine – Round 6 e a gamificação dos nossos desejos.

Por Jônatas Andrade 

“É mais um acerto da Netflix” virou, durante muito tempo nas redes, uma piada (ou meme, como queiram) com o fato de que tudo que fosse produzido pela gigante do streaming, sem sombra de dúvida, seria bom. É difícil negar isso quando, ao menos uma vez a cada semestre, a Netflix consegue colocar alguma série entre os assuntos mais discutidos no Brasil e no mundo: House of Cards, O Gambito da Rainha, Stranger Things, A Casa de Papel, 13 Reasons Why, Dark, The Crown, The Witcher e outras. E da segunda quinzena de setembro para cá, eis que surgiu um dos seus maiores fenômenos: Round 6, o drama da Coreia do Sul cuja primeira temporada possui apenas nove eletrizantes episódios.

É. É mais um acerto da Netflix. O clichê, aqui, torna-se inevitável. Seja em termos comerciais, seja em termos de entretenimento, podemos dizer que a produção sul-coreana capturou duas coisas: 1. a atenção de uma gigantesca parte do público de streamings no Brasil e no mundo; 2. o zeitgeist (a essência) da sociedade no século 21.

Aos fatos e em ordem: Ted Sarandos, diretor-executivo da Netflix, durante a semana que passou, afirmou que Round 6, lançada em 17 de setembro, caminha para se tornar a série mais vista do serviço, ultrapassando os números de milhões de pessoas que assistiram outros enormes sucessos antigos e recentes da empresa, como Bridgerton, Lupin e Stranger Things, para ficar apenas em três exemplos. Além de ser um fenômeno de público, a série criada por Hwang Dong-hyuk, em uma honrada sopa de referências, captura o zeitgeist de muita coisa e nos expõe sem parecer, felizmente, algo à esmo, sem organização ou planejamento.

Com duração média de cinquenta minutos por episódio, ou seja, permitindo com que embarquemos naquele universo e nos interessemos pelo drama de cada uma e cada um dos seus personagens, a série “apela” à prática do binge-watching (assistir episódios seguidos de forma compulsiva) para fazer bom uso da sistemática criada pela Netflix de liberação de uma temporada inteira de uma só vez no catálogo. Com isso, ao geralmente terminar seus episódios com cliffhangers (ganchos premeditados de roteiro para criar uma ânsia no telespectador pelo que vem a seguir), a série intima quem a assiste pelo seu retorno imediato e praticamente automatizado pela Netflix, já que basta esperar e o episódio seguinte começa sem nenhum aperto de botões e em pouquíssimos segundos.

Como se dá a gamificação dos nossos desejos em Round 6? Ora, a panelada de referências da série se encarrega disso. Para estruturar a mecânica de gameplay dos personagens, temos: 1984 (livro ou filme), Battle Royale (mangá ou filmes), o jogo Fall Guys, a saga literária e fílmica Jogos Vorazes e até a série Prison Break. Óbvio que há, certamente, outras referências. Estas cito por serem ou mais conhecidas ou mais atuais.

E para que nos importemos com aqueles personagens, espertamente, a série nos presenteia com um episódio inteiro apenas para estabelecer o background das figuras que vemos em tela. Difícil não se comover e não se interessar por vidas tão espancadas, tristezas tão íngremes e objetivos tão frontalmente expostos.

Ao estabelecer tão bem a história de vida de cerca de uma dezena de personagens, Round 6 nos faz temer por cada um(a) e também nos projeta certos receios por deslizes que venham a ser cometidos quando, para início de conversa, descobrimos que é mortal o tal Jogo da Lula, apelido dado à competição disputada por uma quantidade de mais de 45 bilhões de wones (a moeda local), equivalente a mais de 200 milhões de reais.

Com isso, a série brilha por duas razões que talvez até não soem tão óbvias, porém, são: a primeira delas é o fato de que os dramas de cada personagem possuem distintas profundidades e complexidades, cada um(a) possui razões sinceras, críveis e urgentes para vencerem o jogo. Ao mesmo tempo, em direção oposta à profundidade/complexidade das pessoas que vemos, estão os jogos que são disputados, ou a mecânica dos mesmos. São desafios muito simplórios — avançar do ponto A até o ponto B, desafio de força entre equipes e outros para fugirmos dos spoilers.

É difícil não se encantar e não torcer pela história de ao menos meia dúzia de personagens que ali estão. Por enfrentarem desafios com mecânicas simples em um gigantesco bunker totalitário, qualquer um de nós poderia estar apto a participar, pois são desafios quase escassos de regras e podem ser jogados por qualquer pessoa. Poderíamos estar ali e, de fato, não estamos? A série nos faz investir emoções naquelas pessoas. Suas dores são tão nossas porque já vivemos algo dali. A questão é o quanto de desespero pessoal estaríamos dispostos a receber em vida para que aceitássemos disputar e ir em frente com que é visto em tela e encarado por elas e eles.

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