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Organizar o quarto de despejo para ocupar a sala de visita

por Bruno Costa.

No livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus – negra, moradora da favela do Canindé (São Paulo/SP), mãe solo e catadora de papel – narra com estilo, poeticidade e realismo o cotidiano da vida na miséria durante a década de 50.

Alguns a caracterizam como uma mulher semianalfabeta, talvez em virtude de a escritora ter estudado somente até o segundo ano do ensino fundamental, mas a leitura do seu diário me impede de concordar. Vencidos os preconceitos linguísticos, o que testemunhamos é não apenas sensibilidade e oralidade, mas uma inteligência aguda, capaz de compreender não apenas o mundo no qual foi despejada, mas também o mundo que a despejou e a relação conflituosa entre esses dois mundos.

“… Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores.”

Em outro fragmento de seu diário, Carolina relata que quando está com fome quer matar o Janio (Jânio Quadros), enforcar o Adhemar (Ademar de Barros) e queimar o Juscelino (Juscelino Kubitschek): “As dificuldades corta o afeto do povo pelos politicos.”

A realidade que Carolina Maria de Jesus (1914-1977) vivenciou, denunciou e combateu persiste. Após um curto período de pouco mais de uma década (2003-2015) em que ousamos abandonar o mapa da fome e em que tentamos materializar o estado de bem-estar social esboçado na Constituição de 1988, estamos testemunhando o Brasil ser transformado em um imenso quarto de despejo, com milhões de desempregados e miseráveis, enquanto uma minoria enriquece com a valorização dos dólares depositados em paraísos fiscais.

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”

[…]

“… De quatro em quatro anos muda-se os politicos e não soluciona a fome, que tem a sua matriz nas favelas e as sucursaes nos lares dos operarios.”

[…]

“É quatro horas. Eu já fiz o almoço – hoje foi almoço. Tinha arroz, feijão e repolho e linguiça. Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguem. Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo atoa. Como se eu estivesse assistindo um espetaculo deslumbrante. Lavei as roupas e o barracão. Agora vou ler e escrever.” 

A atualidade do contexto denunciado por Carolina Maria de Jesus décadas atrás é muito mais do que lamentável. São milhões de brasileiros desempregados, subocupados ou desalentados. A insegurança alimentar já atinge mais da metade da população, o que significa que mais da metade da população convive com a ameaça de não ter o que comer ou com a própria fome. A pandemia de Covid-19, associada à necropolítica praticada pelo governo Bolsonaro, já provocou 600 mil mortes.

A esperança que desponta no horizonte tem nome, sobrenome e partido: Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato a Presidente da República pelo Partido dos Trabalhadores. Mas para que a esperança vença as forças do atraso e o próximo presidente do Brasil seja alguém que já passou fome, como reivindicava Carolina, será necessário organizar o quarto de despejo para ocupar a sala de visita. Somente com a organização e mobilização da classe trabalhadora será possível demitir o governo Bolsonaro, garantir a realização das eleições de 2022, eleger Lula presidente, assegurar a posse de Lula e disputar os rumos do futuro governo, para que possamos não apenas acabar com a fome e com a miséria, mas revogar os retrocessos e avançar nas reformas estruturais, tendo o socialismo como horizonte possível.

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Discordo apenas da citação de que “só quem passou fome” pode governar, tendo o pobre como prioridade. É preciso, antes de tudo, ser ético. Não admitir e ser radical contra os ladrões do dinheiro público.

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