Anúncio
InícioBlogCultura de LibertaçãoCultura de libertação - O silêncio que massacra a cultura

Cultura de libertação – O silêncio que massacra a cultura

Por Dionízio do Apodi

Aluguel atrasado. Energia para cortar. Dez alunos, que restaram, nessa crise toda, pagam uma mensalidade que resolve apenas a comida. Para dar aulas, todo dia uma caminhada da comunidade da Baixinha até o Planalto 13 de Maio, em Mossoró, e depois voltar caminhando também, por falta de dinheiro para fazer de outra forma, o que deve totalizar uns 25 a 30 quilômetros. Para ajudar a pagar as contas, uma ideia: vender trufas à noite. Na primeira noite de vendas foi “mais ou menos”, na segunda noite foi melhor, e na terceira muito boas as vendas, restando apenas duas trufas. Na volta pra casa, dois homens levaram as duas trufas e todo o dinheiro da noite.

Este depoimento eu ouvi na Rádio Difusora de Mossoró, onde um jovem de 23 anos, sem saber o que fazer para driblar essa situação foi pedir uma ajuda aos ouvintes da rádio, que pudessem contribuir de alguma forma. Trata-se de Luiz Nonato, professor de dança. Conheço Luiz desde quando o mesmo devia ter entre seis e oito anos de idade, na Baixinha, brincando de fazer teatro na calçada da sede de nosso grupo O Pessoal do Tarará, na Rua Rodrigues Alves. Desde pequeno Luiz era dos meninos da Baixinha que mais se identificavam com as artes. Além de assistir tudo o que a gente fazia, dos ensaios às apresentações, participar das oficinas, ele mesmo juntava algumas crianças, e com o passar dos anos, adolescentes, e brincava de dançar na nossa calçada ou na praça da comunidade, formando grupos que ensaiavam as músicas que gostavam, com coreografias inventadas por ele, que repete, em qualquer tempo e para quem quiser ouvir, que o gosto por dançar, pela música e pelo teatro, se deu por conta da presença de nosso trabalho na sua comunidade.

Espero que Luiz tenha arranjado alguma ajuda através do programa da Difusora, porque sua situação tem urgência, a exemplo de tantas pessoas que fazem parte do setor cultural de Mossoró, que eu conheço, que estão vivendo algo parecido. Mas é necessário pensarmos, refletirmos sobre essa situação, em que somos todos responsáveis em resolver, ou não resolver.

Nesse período de pandemia tenho pensado sobre muitos jovens que fazem parte da vida cultural mossoroense. Ao longo de minha trajetória como gente de cultura, já vi muitos que teriam um futuro promissor nas artes, serem obrigados a largar o que gostavam por sobrevivência. E em cada situação dessa sempre me comovo muito, e me sinto muito responsável, mesmo sabendo que os maiores IRRESPONSÁVEIS são outros. Eu fico muito triste com isso, principalmente ao saber que a exemplo de Luiz, sei de muitos, até não tão jovens, que fazem parte da cultura mossoroense, e não têm uma possibilidade de socorro neste momento em que tudo sobe: a gasolina, o gás de cozinha, a conta de energia, comida, tudo.

Do final do ano passado para este ano houve uma articulação de um grupo de artistas para a criação de um Auxílio Emergencial por parte da Prefeitura de Mossoró. A Câmara Municipal foi acionada, visitada e convocada para isso, a Prefeitura de Mossoró, também, através do Secretário o professor Etevaldo e até do próprio prefeito, mas foi fincado, por eles, que não haveria condições. A articulação de artistas já tinha previsto tudo, de onde sairia o dinheiro, utilizando recursos do próprio Mossoró Cidade Junina, mas foi negado. Não houve auxílio. A ideia poderia até ter colocado Mossoró entre alguns municípios de vanguarda, no Brasil, em relação à cultura. Imagine… um município que criou um auxílio emergencial para cuidar das pessoas que fazem a cultura de seu município, o setor, talvez, mais afetado com as consequências da pandemia.

Mas isso foi deixado de lado. A Prefeitura de Mossoró preferiu realizar o Mossoró Cidade Junina virtual, e produzir um vídeo do Chuva de Bala. Recursos desses eventos chegaram em alguns companheiros e algumas companheiras que participaram, sim! Mas isso foi pouco para o universo que é a cultura de Mossoró, que o poder público não conhece, e que boa parte da própria classe artística também desconhece, ou ignora.

O Mossoró Cidade Junina virtual foi realizado, e o vídeo do Chuva de Bala produzido e colocado no YouTube. O prefeito Allyson Bezerra e sua equipe ganharam espaços para discursar, uma parcela pequena de trabalhadores recebeu recursos para aquele momento, e as coisas seguiram, sem mais barulho ou luta pelo auxílio, deixando tudo em silêncio.

De lá para cá, enquanto a situação da maior parte dos que fazem o setor cultural piorou drasticamente, presenciamos a Câmara Municipal eleger seu presidente já para o mandato de 2023-2024, mesmo sem ter nem terminado esse primeiro mandato (ah… está no regimento… blá, blá, blá… então por que não mudam o regimento? ). E o mesmo presidente da Câmara já anunciou que vai ser candidato a deputado federal, e com o apoio do prefeito Allyson Bezerra, que também é aguardado, para revelar, a qualquer momento, o nome de quem vai apoiar para deputado estadual. Digo isso tudo para mostrar que o compromisso dessas pessoas é com um projeto de continuidade no poder, de fazer carreira na política, sem levar em consideração o que machuca, de forma profunda, o setor cultural, e os outros setores do município.

Lembram quando eu criticava a forma que a administração passada executou os editais da Lei Aldir Blanc, que não chegaria na maior parte e em quem mais precisava? Pois aquela luta era para amenizar a situação de pessoas como Luiz. E Enquanto isso assistimos dezenas de jovens que poderiam se desenvolver plenamente dentro da cultura do município, se desanimando, por falta de oportunidades. No momento, há um silêncio devastador para com a cultura de nosso município, estado e país. No plano nacional, é um silêncio de incompetência, de despreparo, pois a gente sabe para onde esse governo nos leva, ou já levou mais de seiscentos mil brasileiros. No âmbito estadual, mesmo com um governo que na teoria seria mais sensível, por mais que um ou outro estribuche uma defesa, para fazer crer que algo está andando, nós sabemos que o passo é de tartaruga, não há pressa. No município o silêncio é para que se chegue até o Mossoró Cidade Junina do próximo ano, para onde estão direcionados todos os recursos. Seria lindo para o poder público de Mossoró dormir hoje e acordar em junho de 2022. Até lá, Luiz segue sua saga, ignorado por quem tem a obrigação de olhar por jovens como ele.

Até o próximo domingo!

Abraços e há braços!

ARTIGOS RELACIONADOS

2 COMENTÁRIOS

  1. Infelizmente amigo, a cultura em Mossoró é tida como supérfa-la e não merece atenção devida. E do pouco que se faz, é objeto de palanque eleitoral!

  2. Triste realidade de meninos e meninas pobres da periferia que escolheram como meio de vida e realização pessoal, partilhar o que tem de mais belo e humano, dividir o com os outros o que tem de maís sensível.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Anúnio -
Google search engine

Mais Populares

Comentários Recentes

Receba notícias
NE 360
Assinar!
Não enviaremos spam. Seus dados protegidos.