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Cultura de Libertação – No país de Mossoró a cultura é a do jargão

Por Dionízio do Apodi

Em Mossoró, município em que as gestões entram e saem e continuam com o mesmo discurso, de que a cidade é capital da cultura do Rio Grande do Norte (um dia já quis ser do Brasil), e que o Mossoró Cidade junina é o orgulho dos mossoroenses, constatamos que por trás dos jargões e frases de efeito, que adotam os que comandam e ditam as regras da “política cultural” existe a falta de planejamento, vontade política e compromisso com a cultura do município. Não é muito diferente da maior parte dos municípios do Rio Grande do Norte, e posso até ampliar a situação para o país, e assim colocar o leitor de qualquer região em uma posição de refletir sobre a cultura brasileira, mesmo quando cito, com a propriedade que tenho, o fabuloso caso de Mossoró.

Começamos pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais, que esta semana, finalmente, depois de várias tentativas, conseguiu realizar a tão sonhada reunião. Há um plano de enfraquecimento do Conselho, por parte do poder público, não de agora, desde os primeiros passos, principalmente porque esse instrumento importante para a cultura é a nossa voz (da sociedade civil) na mesa em que se discute qualquer ação cultural dentro do município de Mossoró. Pelo menos assim deveria ser, e para isso ele foi criado. Há mais de uma década que os fazedores e fazedoras de cultura de Mossoró lutam por esse instrumento, e a realidade que temos é de uma má vontade para com a existência dele. Por quê? Eu explico…

No Mossoró Cidade Junina sempre circula quantias milionárias. Sabemos das bandas de forró de plástico que sempre vieram para cá, com cachês bem maiores do que recebem em outros lugares, no mesmo período, como por exemplo em Campina Grande, que está no topo das festas juninas, junto com Caruaru. Este evento mossoroense, que não sou contrário a ele mas ao formato, é um grande cabo eleitoral para as campanhas políticas. Pesquisas já foram realizadas em que mostram que o prefeito ou prefeita de Mossoró, aumenta muito a popularidade e avaliação positiva da gestão, durante e pós o Cidade Junina. O evento tem efeito anestésico. Não à toa, políticos da baixa da égua, que nunca nem ouvimos falar, de olho na carreira política, junto com os medalhões responsáveis pela situação caótica porque passa, e sempre passou, nossa cultura mossoroense, desfilam seus sorrisos, apertos de mão, acenos e discursos vazios, por aqui, no período.

Mossoró Cidade Junina em 2020 (Foto: Wilson Moreno)

Imagine se a Secretaria de Cultura de Mossoró precisasse ouvir os fazedores e fazedoras de cultura do município para poder realizar o evento, e não só em relação ao Mossoró Cidade Junina, mas a qualquer ação cultural, tirando o poder de escolher e propor qualquer coisa de acordo com os interesses de quem está na prefeitura…

O Conselho Municipal de Políticas Culturais tem o poder de propor, fiscalizar. Qualquer projeto realizado pelo poder público precisa ter a aprovação do Conselho. Entende então o porquê que as gestões, ao longo dos anos, e a atual não é diferente, não querem que o Conselho funcione? Entende agora? Entende mesmo?

Desde agosto passado que o atual presidente do Conselho, o ator Américo Oliveira, aguarda a sua nomeação no Jornal Oficial do Município. Que falta de vontade da gestão, quando vemos que nesse mesmo período de espera, secretários do governo saíram de uma pasta para outra, ou até do governo, e nomeações foram feitas de um dia para o outro, mas com o Conselho não há pressa. Os representantes do prefeito no Conselho não estão nem aí para as discussões, sem contar que a maior parte dos seus indicados não tem conhecimento nenhum para debater sobre os problemas da cultura mossoroense, e só falam através de jargões (Mossoró é a capital da cultura, valorizar os artistas da terra, Cidade Junina é o orgulho dos mossoroenses e frases do tipo), sem contar as intimidações: essa semana um figurão do governo Allysson que ocupa uma vaga no Conselho, ao ser cobrado por um companheiro nosso, acerca de sua presença na reunião, encenou um “bateu, levou!” para um de nossos representantes da cultura no Conselho. O que temos visto, a olho nu, em quase um ano de governo, na cultura, é o despreparo dessa gestão para tratar de nosso setor cultural. Tratam a cultura de qualquer jeito, sem prioridade nenhuma. E assim o tempo passa, chegamos ao final do primeiro ano da atual gestão, e nada, absolutamente nada, de concreto, foi feito para a cultura de Mossoró, a não ser conversa mole e muita enrolação. Como assim, gente?

Como o orçamento da cultura que é feito sem nenhuma participação dos fazedores e fazedoras de cultura mossoroenses. Não fosse o vereador Pablo Aires que chamou a atenção do setor cultural e conseguiu adiar a votação tão às pressas de nosso orçamento para 2022, agora estávamos, com tudo aprovado, sem podermos opinar. A Câmara Municipal de Mossoró tem a cultura de botar para a votação pautas importantíssimas sem tempo de discussão, e a gestão do atual presidente, que já está eleito para o mandato 2023-2024 mesmo sem ter cumprido metade do atual mandato, além de já posar como o candidato do prefeito à Câmara Federal, não difere em nada do que temos visto ao longo dos anos naquele lugar de trocas e negócios, mas que nossos vereadores gostam de repetir o jargão que “é a casa do povo”. Você tem falado tanto em jargão… o que é jargão?

Segundo o “pai dos burros”, o dicionário, jargão é “linguagem viciada, disparatada, que revela conhecimento imperfeito, qualquer linguagem incompreensível”. Eles repetem, comem, bebem, festejam, se lambuzam e dizem que é a casa do povo, povo esse que está sempre distante das discussões que realmente importam.

Voltando ao Conselho, tenho sido um dos maiores defensores dele, ao longo dos anos, e feito um trabalho de formiguinha, para tentar conscientizar nosso setor cultural para a importância deste instrumento. Vejo pouca gente atendendo ao chamado do Professor Denilson Duarte, um de nossos representantes no Conselho, que acena pra todo lado pedindo ajuda, pedindo reforço para sairmos desta letargia (estado de profunda e prolongada inconsciência, semelhante ao sono profundo, do qual a pessoa pode ser despertada, mas ao qual retorna logo a seguir. Apatia, inércia ou desinteresse).

Ontem à noite eu ouvia e via uma companheira da cultura mossoroense mostrando o seu trabalho artístico, com uma ousadia, com uma grandeza, em meio a tantas dificuldades, e doeu muito em mim. Doeu porque igual a ela tem tantas e tantos pelos bairros e zona rural de Mossoró, que precisam apenas de um apoio para ir além. Já vi tanta gente talentosa ficar pelo caminho por falta de uma condição mínima! Conheço tantos que morrem de vontade de se dedicar ao que mais gosta mas são obrigados a perder sua vida na AeC (empresa milagrosa de telemarketing que rouba e esgota a vida de nossa juventude). Já vi tanto jovem que sequer teve a chance de levar uma vida diferente da prisão que a ausência de política pública lhe impôs. Isso tem responsáveis, e é necessário combatê-los através de nossos instrumentos democráticos e de direito, como o Conselho Municipal de Políticas Culturais. É tão fácil fazer a coisa andar. Uma dose de conhecimento de causa, e se não tiver muito isso, uma dose de sensibilidade para ouvir as pessoas da cultura têm para dizer, ajuda muito. Porque quem sabe da situação da cultura não é vereador, secretário e prefeito que falam jargão não! Quem sabe o que dói e qual a solução para parar de doer está desse lado aqui, da gente, e o poder público, sempre, teima, insiste, tolamente, em decidir por nós, nos orçamentos, nos editais, nas políticas adotadas, nos colocando numa posição de desgaste, sempre. Nos roubando o tempo para o que temos de melhor que é a nossa criatividade em transformar as coisas. Nos roubam o tempo, a energia, o suor, a dignidade, só por querermos que se cumpra o que diz nossa Constituição: O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

Até o próximo domingo!

Abraços e há braços!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Você continua com a razão Dionizio. Parece que tem uma doença, um vírus ou uma bactéria que quem ocupa a a cadeira de prefeito e a de secretaria vira logo o algóz da Cultura.

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