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Cultura de Libertação – Depois dos fogos, o ano novo e os problemas velhos

Por Dionízio do Apodi

Como podemos ter continuidade e fortalecimento dos elementos e símbolos de nossa cultura se o exercício e a dedicação a ela representam miséria, esmola, fome e humilhação? Parece exagero, mas precisamos refletir de uma maneira mais responsável acerca de nossa cultura, em Mossoró, no Rio Grande do Norte e no Brasil. A maior parte de nossos representantes, em todos os níveis, do executivo e do legislativo, contribui e muito para uma visão deturpada acerca de nossa realidade, que não é muito diferente de outros setores.  Além de governos que não têm a cultura como prioridade, lidamos com a irresponsabilidade desses REPRESENTANTES que enganam, mentem e camuflam a realidade, dificultando a compreensão por parte das pessoas mais simples.

Como fica a cabeça de um cidadão ao nos ouvir dizer que A CULTURA NÃO VAI BEM, como todo o contexto não vai bem também, quando do outro lado, ao longo dos anos, ele escutou, e continua, tantas vezes que Mossoró é a capital da cultura, que seu São João é dos melhores do Brasil? Frases do tipo “nossos artistas da terra são muito bons (artista da terra é minhoca)”, “Mossoró investe muito em cultura” já estão mais que na hora de serem combatidas. Quem melhor que as próprias pessoas que fazem cultura para falar dessa situação?

NOSSOS GESTORES ROUBAM ATÉ NOSSA FALA, porque chegam nos meios de comunicação e apresentam um discurso que não condiz com a realidade, confundindo a população. São mestres em pirotecnia (arte ou técnica de usar fogos e explosivos). Isso, claro, é uma metáfora (figura de linguagem que produz sentidos figurados por meio de comparações), e o que quero dizer é que igual a uma queima de fogos, que chama atenção da população e que não mostra nada além de barulho e a luz das explosões, assim são nossos gestores, os que passaram e os que ainda estão, no caso de Mossoró, que se utilizam de artifícios para tirar a atenção dos problemas mais sérios, que não irão resolver, para levar a população para uma dispersão do que seja principal, e ficar com o momentâneo, o que não deixa marcas, como é o caso da forma que são utilizados os grandes eventos mossoroenses.  

O fole de oito baixos, aquele que Januário, pai de Seu Luiz Gonzaga, tocava, em nossa região, por exemplo, praticamente não existe mais, com a morte do Ceguinho de Apodi, em 2018. O Ceguinho era conhecidíssimo em Mossoró, andava no mercado, nos bares, no comércio, nas calçadas, acompanhado por uma pessoa que o guiava. Ceguinho tocava seu fole de oito baixos para pedir esmolas. Era uma tristeza ver uma pessoa tão importante para a cultura de nosso estado, morrer sem nenhum reconhecimento do poder público, sem nenhum apoio. O Ceguinho teve uma vida dificílima, e o seu fole de oito baixos, mesmo nos últimos anos estando todo remendado de fita adesiva, pois ele não tinha dinheiro para consertar, foi a primeira coisa que a família se desfez, vendeu. E acrescento isso não para julgamento da família, pelo contrário, mas para tentar mostrar por esse texto, que com a morte do Ceguinho, praticamente acabou o fole de oito baixos em nossa região. E que este exemplo, de pessoas, mestres, fazedores e fazedoras de cultura que quando morrem, morre também um saber, temos inúmeros para ilustrar. O Ceguinho de Apodi, infelizmente, é apenas mais um caso, e continuará sendo. Dona Clinálria que dançava o Boi de Reis na comunidade do Papôco, aqui mesmo em Mossoró, com a morte dela foi embora uma tradição que ela herdou de seu pai, que já tinha herdado de alguém mais atrás.

Ceguinho do Apodi, falecido em 2018

O que tenho para dizer é duro, mas é necessário: para as famílias de quem carrega essas heranças e símbolos de nossa cultura, É MUITO DIFÍCIL VIVER, e na maior parte dos casos, impossível a manutenção e o prosseguimento. Voltando ao exemplo do Ceguinho do Apodi, imagine que a vida inteira dele foi dedicada a tocar o fole de oito baixos, que para um filho, um neto, sempre significou sinônimo de miséria, de necessidade, de precisão extrema. Nesta condição, não há possibilidade de alguém levar adiante.

Isso tudo posto na mesa, agora eu pergunto: qual seria a função, o papel, o objetivo, o trabalho de uma secretaria ou uma fundação de cultura, diante de um cenário tão rico culturalmente, mas tão abandonado, onde os fazedores e fazedoras de cultura, mesmo morrendo desempenhando aquilo, gritando que é importante, ainda não conseguem sensibilizar as gestões públicas para transformar sua prática, sair da cultura de eventos?

Como podemos desejar feliz natal e feliz ano novo, diante de quadro tão terrível, devastador, sem amparo para a nossa cultura, por parte de quem teria condições de reverter isso tudo? Nossos gestores da cultura não olham pelos que fazem cultura, não há proteção nenhuma para ela. Só fazem desvirtuar a realidade, mentir e criar mais eventos.

Este é o nosso último texto de 2021, aqui para o Cultura de Libertação. As festas acontecem, as luzes estão acesas, os fogos estão explodindo, as cestas básicas sendo distribuídas, mas ao chegar a ressaca do dia primeiro, nossa realidade é cruel, na cultura é sem tamanho, porque sempre é relegada e vista como algo menor, de forma EQUIVOCADA PELOS EQUIVOCADOS dos nossos “representantes”. Em Mossoró, se foi proposital, a gestão atual pode “bater nos peito” e dizer: CONSEGUIMOS NÃO FAZER NADA de relevância cultural no ano inteiro. 2021 – O ANO PERDIDO. Para 2022 não acredito numa mudança maior do que o que já fizeram lá atrás, criação de eventos, pirotecnia, campanha eleitoral, o prefeito querendo eleger deputados estadual e federal… roteiro antigo, filme velho com roupagem de outra cor. É como trocar rosa por azul, somente.

Até 2022!

Abraços e há braços!

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1 COMENTÁRIO

  1. Pura verdade Dió, a essas frases chulas a respeito da cultura ditas per esse povo direita, também já ouvirmos do pessoal dito de esquerda que: “O Chuva de bala é um espetáculo que pode ser visto em qualquer lugar da Europa”! De alguma modo o nosso pseudo esquerdista, tem rasao na sua fala e visão eurocentrista da arte da cultura, o nosso espetáculo sobre a resistência tem mais haver com a Europa e broadway do que com a nossa arte e nossa gente..

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